sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ai de mim que não sou romântica

O ano passado eu escrevi uma poesia que para mim foi arrebatadora, uma profecia. Era uma continuidade de uns versos que criei há dez anos e só conclui agora. Lembro que fiz uma baita elaboração; tinha o conteúdo, investi na forma. Até pedi ajuda para a minha professora, que é uma pessoa incrível e amante de João Cabral de Melo Neto, porque participaria do concurso de poesia da universidade e precisava de um olhar mais aguçado, mais crítico.

Terminei a poesia e enviei com pseudônimo, pois os selecionadores não queriam saber quem eram os artistas, para que não houvesse privilégios de um ou de outro.

Enfim, chegou o dia do concurso. Vi que a minha professora me viu de longe, junto com alguns colegas de sala, e sorriu amigavelmente. Mas, ao vê-la folhear as dez mais, que os outros dois professores selecionaram, vi que seu sorriso desapareceu.

Logo vi. Eles não escolheram a minha poesia. E não escolheram mesmo.

Na aula seguinte, a professora comentou sobre o evento, e indagou o porquê da minha poesia não ser escolhida. Mas, por uma análise minha, de todas as outras que ouvi, logo conclui:

- É porque eu não sou romântica.

O Romantismo... Movimento que deu tanta ênfase ao declarar seus amores que deixou a razão de lado. Amar até a morte, até que os separe ou os una de vez... Papo furado. Primeiro que depois de mortos ninguém se dará por casado. Lá, o lance é outro.

Não quero agredir um movimento que lançou de vez a estrutura do romance (que é uma história mais longa, com começo, ápice, e fim – não precisa necessariamente falar da paixão de um homem e uma mulher, mas também de uma aventura, qualquer que seja o tema), mas só quero declarar o que sinto, e se tem emoção dentro de mim, ela não parte para o romantismo.

Então declaram: “É porque você não é casada”. Não sei dizer o que seria caso fosse, mas eu vivo de hoje, e o meu agora é declarar...

Difícil é ver profeta romântico. Antigamente eles arrancavam, derrubavam e faziam de novo, ou diziam o que tinha que ser falado. Até certo profeta, que perdeu a mulher, foi ordenado por Deus que ele não chorasse. Chora não.

Talvez eu me englobe nesse entendimento profético, não aos recantos da minha alma, do massagear do ego, do satisfazer a minha vida sem equilíbrio algum. O amor não é desequilibrado, cego, não atento; não se joga na ponta do abismo, mas antes tira a quem ama dali.

Talvez um dia escreva versos românticos, mas sempre quero lembrar-me de manter os meus pés no chão. Isso não é medo, não. Quem ama nunca perde a cabeça, sabe muito bem o que falar. E com razão.

Ai de mim? Que nada. Coloquei só para ilustrar.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

Um comentário:

Irene disse...

Excelente, dentre tantas mulheres "desequilibradas por amor" eu me alegro em ver uma romântica sim,mas, antes de tudo, uma mulher equilibrada.
Parabéns.
Irene Alencar