segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Não Quero Turuchi

Eu sempre gostei de música negra no fundo, no fundo. E do Hip-hop, na época que morava no guetto da zona sul de São Paulo, tentava ocultar aquele gosto peculiar, dando-me faniquito quando eu via os jovens se juntando para dançar nas festinhas do bairro da Vila Missionária. Nesse ambiente, ouvíamos sobre tudo a respeito da música, como a dança, o estilo (que eu nunca adquiri e nem critico) e outras tendências.
Uma delas era o beatbox, um som maluco que os meninos faziam com a boca e que era muito difícil. Pensava que comeria os lábios de tentar. Como nunca consegui, fiquei na simples onomatopeia, fazendo simples sons de tuchtá, tuturutá e outros como que só uma boba como eu pode fazer. Com esse estilo meio hip-hop, cheguei a fazer músicas de algumas declinações do Latim na faculdade de Letras para não esquecer na prova. A assonância, repetições de vogais num trecho de poesia ou música, se fez logo na primeira declinação:
“Ah, ae, ae, hã? Há, há...
...Ae...arum, is, as, ae, is…” – E assim vai.
Babaca que seja, todo mundo passou na matéria. Minha amiga com cara de índia disse que eu tinha ginga. Antes ela falar do que eu.
O tempo passou e participei de um grupo de Street Dance na igreja. Eu demorava demais para pegar cada “...7 e 8”. Mas no final, tudo era muito gostoso de fazer, ainda mais para o Reino de Deus. Nós criávamos nossos “oitos”. Eu fiz alguns bem complicados. Dançávamos em apresentações na igreja, em eventos evangelísticos, no meio da rua em meio a tantos perdidos. Confesso, amava fazer aquilo, era deleitoso. Mas um dia, tudo parou por falta de recursos humanos (e de querer mesmo).  Nunca mais se falou de Street Dance, ninguém se motivava, todos éramos gordos espirituais e preguiçosos, gostem disso ou não.
Porém, tudo isso fica na minha memória. Todas aquelas experiências originárias do Hip-hop. Músicas, danças, o beatbox.
Passei um tempo na casa do meu irmão, e minha sobrinha, um poço de criatividade, copiava quase igual tudo o que a gente fazia. Uma vez coloquei um gorro largo que comprei em Nova Iorque e comecei:
“Tuchi, turuchi... tuchi, turuchi...”.
Dançava diante dela, e ela me imitava com aquela graça de menina fofinha, aquela voz fina e doce como se ela fosse um marshmallow colorido. E todas as vezes que eu colocava o gorro, dançando ou não, ela vinha com aquele turuchi infantil e gracioso.
Enfim, sai da casa de meu irmão. Quase nunca a via, então nos comunicávamos pelo whatsapp. Sua mãe, para fazer uma graça, colocava-a no áudio para dizer alguma coisa para mim, sempre com muito divertimento. Foi então que sua mãe pediu para ela fazer o turuchi, mas ela insistia em cantar a musiquinha que ela aprendeu na escola. Então ela declarou:
- Não, não. Não quero turuchi.
Foi demais. Ela finalmente aprendeu a dizer não com todas as palavras. Ela cansou do turuchi. Era o seu tempo de uma nova música, uma nova canção, e aquelas velhas coisas já não davam mais, e bastou para o turuchi. Fiquei matutando aquilo, e passei a encerrar vários “turuchis” na minha vida.
Acabou-se o tempo do beatbox para mim, e nem sei se minhas onomatopeias se encaixam na excelência de um verdadeiro beatboxer. Mas já passou, e eu também, querida sobrinha, já não quero mais turuchi.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

Nenhum comentário: