segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Ira Hiroshima

Nunca quero me esquecer dos meus dias de calada, dos dias e das noites que eu fechei a boca ao bater da porta do quarto como se gruda os lábios. O cala boca é opressor e necessário, mas abri-la para os céus é renovador. Se esta última palavra não sei bem o que é, acredito que seja como mergulhar bem profundo numa piscina num dia intenso de verão. Quando saio, sei que me renovei.
Aquela ira mal tratada é como a gripe mal curada que evolui para a tuberculose e mata quem a conserva. A ira não se cura com os berros, e como o tuberculoso, quando se abre a boca para a nuvem de testemunhas, todos ficam doentes igualmente. É melhor calar, e falar com quem entende de doente.
Sabe que Davi aplacou a sua ira em oração. Calou-se para o mundo e não deixou de orar. Calou-se para todos, mas registrou em canções a sua injuria, desgrudou-se desse peso e dormiu muito em paz...
E eu dormirei, tanto quanto ele, no mesmo quarto em que a Hiroshima explodiu.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração.

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