segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Magrelinho de Santana

Santana é o bairro que brevemente já não terei e me leva a meditar todos os dias. É antagônico de um lado para o outro, de um nível alto para o baixo, tenho muito a falar. Porque assim é seu extrato social, e se você vai mais alto, esnoba-se, e se for mais baixo, sarjeta-se.
Estou no alto não sendo tão rica e ao meu redor esgueira-se a falência de muita gente, o resto de fortuna de um passado já declarado em Dancing Dance, porque aqui, com todo o respeito, há muita gente idosa, que de alguma maneira ainda vive das nostalgias, e talvez já não queiram mais as sombras das revistas sociais. Ex-socialites, ex-diretores de grandes bancos e suas esposas. Aqui no alto de Santana sempre esbarro em suas senhoras e seus cães. É só subir a Rua Voluntários da Pátria e encontrarás cada um desses personagens em suas salas de jantar preocupados em nascer e morrer.
Mas, descendo a mesma rua que eu citei ao pé de seu declive, tudo muda de figura. Ao virar na Avenida Cruzeiro do Sul, faça isso a pé se a coragem o permitir, o cenário vai mudar drasticamente. Numa praça, que não me pergunte o nome, estão tantos moradores de rua que ao passar por ali o cheiro de necessidade impregna no nariz. Bêbados, loucos... Ei sociedade, ninguém quer chegar perto. Fiquem ao pé do morro e mofem por ai, grita a plenos pulmões a nossa indiferença.
Aconselho, contudo, a não descer por ali na noite. Abordagens de rua são sempre conflituosas. Certa vez, parada eu num ponto de ônibus, um mendigo com problemas mentais veio em minha direção então pensei em correr. Mas calculei na cinemática da situação quem chegaria primeiro, ele ou o ônibus que acabara de virar a praça para subir o bairro requinte. Subi para o ônibus com um acento de soldado e parti do confronto.
Todos esses personagens de extratos me chamam a atenção. De um lado do terminal de ônibus até o outro da avenida nas travessas da Cruzeiro do Sul à Voluntários, há tantos necessitados e cada um deles me surpreende, e todas as vezes um deles me chama mais a atenção. Um jovem magríssimo e trigueiro, cheio de marcas de sujeira e uma calça tão encardida talvez endurecida, sempre passa por mim. Ele surge encolhido como se seu andar fosse um crime, como se cada passo nas ruas com os pés descalços fosse apenas um perdão, meu povo, por eu existir. Todas as vezes que o olhava passar, a indiferença caia por terra, mas resistia por medo.
“        Alguém vai fazer algo? Eu não vou fazer nada? Ele é jovem demais, meu Deus... Ele é jovem demais...”.
Faz-se uma leitura. Ele talvez seja algum jovem que abandonou sua velha terra para se aventurar nessa rude capital para ver o que dava. Veio de muito longe, e agora, já não pode voltar. Ou fugiu de casa e dos abusos da vida, e de tanta rejeição endureceu como aquela calça que adquiriu já não lembra a data.
A vontade de abordá-lo é muito grande. Eu já falei com ele quando vinha do trabalho. Desci perto de um supermercado próximo à Brasleme e de repente me deparei com ele sentado no chão. Ele falou comigo:
- Moça, me paga um café?
Fitei-o. Ele não era louco. É apenas um sofrido de rejeição.
- É claro. Espere ai.
Entrei num bar, comprei um pingado, duas colheres de açúcar, mexendo e mexendo, está ai, campeão. Arrependi-me de não falar com ele. A pressa da vida anula as melhores experiências.
Quase todos os dias, vejo o jovem recalcado (de repressão, e não erroneamente de inveja como essa geração diz), andando de um lado a outro pelo rejeitado pé do morro da sociedade, pedindo em silencio, ajuda-me, por favor. É a cobrança dos céus em mim, de Jesus em mim. Ficara pensando o que podia fazer: abrir a minha casa para aquele desconhecido, mas, e ai?... E se sonda as expectativas do “algo”... Ansiosa, oro e escrevo. Pontuo nos céus essa lembrança, e desço do monte como Zaqueu desceu da árvore, e faço os meus olhos verem ao que me grita, ao desespero de alguém, ao grito do aflito.
Eles, os necessitados, todos os dias gritam ao pé do morro. Sim, eu posso ouvi-los. Sabendo eu, algo tem que acontecer.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração.

Um comentário:

Unknown disse...

Ótimo texto e reflexão Vandinha! Me interesso saber qual a história deste menino.Será que é seu próximo passo? Rsrs Bjus