segunda-feira, 4 de abril de 2016

A Nota "C"

Na minha época da escola, quando ainda chamávamos de primário as portas do saber, nas escolas estaduais de São Paulo as notas eram classificadas de A à E. O “A” era a ascensão a cânone. O “B”, ainda era tachada de inteligente, e quem o tirava, chorava por não ter chegado ao topo. O “C” era a ainda azul à beira do abismo, sinal que existia salvação para os condenados. Mas o “D” e o “E” era condenação total, as notas vermelhas do desastre escolar.
Por qual motivo estou falando disso? Oras, porque no fundo sempre estive na nota C. Não por ser ruim, mas porque no fundo sempre precisei de Deus, e nela Ele manteve-me por várias e várias vezes como sinal de superação.
Eu estava na terceira série. A classe inteira precisava de libertação, e para alcançar sossego, a professora lançou um desafio: quem ficasse mais quieto, ganharia uma pequena calculadora, um modelinho quase que de carteira. Somente eu e mais uma menina que costumava ficar epiléptica na sala éramos as mais quietas, mas por um vacilo por olhar para o lado, perdi a chance da calculadora.
Na quinta série, eu só perdia para uma pequena nissei que era impossível de superar porque nossos japoneses são melhores que os outros. Eu estudava à tarde, mas pela manhã frequentava um tipo de creche de meio período que nos dava auxilio escolar, alimentação e recreação. Eu havia feito uma prova de matemática na escola e tirei “C” porque a metade dos exercícios eu não consegui terminar. A professora entregou-me a prova decepcionada com uma das CDFs da sala. Eu entristeci, mas pedi ajuda a uma das tias da creche que entendia de Matemática. Na segunda prova, “gabaritei”. A professora não expressou sorrisos, mas orgulhou-se pela superação.
Para o “A”, sempre precisamos do próximo. Alguém para nos ajudar.
No final do quinto ano, tirei “A” apenas em Inglês, e todo o resto “B”. Entretanto, nos outros anos de escola, lutei, em verdade vos digo, e por mais que tentasse, o “C” perseguia-me.
Eu era burra? Não, aquilo era ensinamento dos céus.
Após crescer e me formar, vi uma reportagem numa revista que explanava sobre os alunos da nota “C”. Uma das entrevistadas, uma como eu, beirou essa nota por toda a sua vida escolar, mas na hora de prestar vestibular, conquistou o sim da medicina. Quem esperava? O “C” superava!
O “C” é a limitação do eu, o não ser deus de nada, é a mais pura dependência dos céus. Se tudo posso Naquele que me fortalece, que seja sempre no “C”, e nunca no “E”.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.