segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Dia Que Virei um Dálmata

Quando soube que tomaria uma bicicleta para circular nessa cidade californiana, temi. Já tomei tantos capotes que me traumatizaram, e andar de bicicleta era um desafio para mim. Ao arranjar uma bicicleta emprestada, minha irmã queria me ensinar algumas manhas, como não brecar na dianteira e sair voando à metros. Contudo me lembrei de minhas experiências e disse a ela:
- Ih, depois da Serra da Cantareira ando em qualquer lugar!
Sim. A Serra da Cantareira. Ali há uma trilha de Down Hill tão terrível que certa feita um rapaz... Melhor não contar. Essa crônica não é o Cidade Alerta.
Tudo aconteceu quando um grupo de amigos loucos da igreja me convidaram para ir naquele terror. Sabia que não prestaria e mesmo assim fui com eles. Ao chegar na entrada da trilha, tomei um susto. Havia chovido e haviam sulcos profundos e sinuosos pelo caminho.
“É hoje que morro”.
Foi uma das experiências mais terríveis que eu vivi. Cai tanto da bicicleta que o corpo já não doía mais. Foi então que a trilha terminou e entramos numa estrada coberta de britas onde também circulavam carros. Fizemos uma fila, e eu sempre tinha medo de carros na mesma via das bicicletas. Então, algum abençoado gritou:
- Olha o carro!
Nisso, eu assustei, dei uma virada na bicicleta e me arrastei como um avião pousando na brita. Uma grande poeira subiu, e no meio dela a Vandressa dilacerada. Todos pararam, minha roupa toda esfarrapada, o osso esquerdo do quadril e as palmas das mãos raladas. Na minha boca formou-se um brigadeiro, e o nariz se impregnou de sujeira. Minha turma parou, foi me socorrer, deram-me água, primeiros-socorros e depois riram. Vão se catar todos eles. Até hoje eles riem de mim, e talvez na mente deles eu nunca mais deveria pegar uma bicicleta na vida. Bobinhos.
Ao chegar em casa, meu corpo inteiro eram hematomas. Eu era um dálmata.
Aprendi a andar de bicicleta quando morava no Brás. As ruas planas que dividem até hoje o espaço nos dias comerciais com os caminhões e sacas de grãos. Mas no fim de semana a rua estava livre, e nós gastávamos nossas energias infantis naquela rua da turminha do Brás. Quando consegui minha primeira pedalada, a rua inteira torcia por mim. Eles não pensavam na minha queda, eles torciam para eu ficar de pé.
Então, vim para a Califórnia. Aqui, ou você se locomove de carro ou de bicicleta porque alguns lugares são distantes demais para andar a pé. Descolei uma bicicleta para ir à Escola e para trabalhar. Teria que enfrentar os carros de novo, outros ciclistas, outras subidas e descidas. Meu Pai, lá fui eu de novo. E quer saber? Foi uma das melhores coisas que fiz nesse lugar. Não tenho medo da direção, não breco na dianteira, subi o assento e ganhei o chão.
Todos os dias, eu corro com ela. Pego trilhas, vou ao Harbour, desço até a praia. Às vezes eu grito de emoção na velocidade, e na noite escura e sem carro algum, na minha rua pouco iluminada, corro um pouco mais até alcançar o radar movido à energia solar. Sempre marca 11 miles quando passo, porém um dia corri um pouco mais e cheguei à 14 miles. Eu, Deus, e a bicicleta que eu não tenho mais medo de andar.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

Um comentário:

valter gefali disse...

Eu lembro desse dia!!! E ollha que eu troquei de bike com vc (A bike que vc tinha pego era toda dura)... Faz tempo hein....